quarta-feira, 14 de maio de 2008

A etiqueta do debate em debate

A frescura do mundo contemporâneo transformou qualquer papo de boteco ou briga de blogueiros em “debate”. Assim sendo, qualquer mané “debate” sobre a Mulher Melancia, sobre a zaga do Botafogo e outros tantos assuntos sem a menor qualidade.

Contudo, poucos debatem a etiqueta à mesa do debate. Debate em debate tenta preencher esta lacuna do debate. Como agir? O que pedir? Qual é o petisco adequado para falar sobre Schopenhauer? Pega mal tomar pinga com mel em uma querela sobre o materialismo dialético?

Não é de bom tom, para começar, chegar à mesa pedindo chope. A não ser em casos raros, como debates sobre os tribunais de Nuremberg, chope é individualista e nem Freud explica o que leva um sujeito a pedir uma caneca de escuro para discutir a expansão colonial européia.

Se a mesa pedir Brahma, vá de Brahma. Não convém pedir uma Original só pelo gosto de humilhar os demais debatedores. Caso a situação esteja na base da Heineken, também não é aceitável tomar uma Antarctica, já que isso pode ser interpretado como um sinal de falsa humildade ou, ainda pior, de pouca atenção ao assunto.

Carlinhos Bala, filósofo contemporâneo e atacante do Sport Recife, discorre com maestria sobre o tema, em entrevista exclusiva ao D em D: “A qualidade do debate desde a abertura democrática tem caído na proporção em que aumentou o preço da cerveja. O Figueiredo, por exemplo, nunca deixaria alguém falar sobre Kant tomando uma Brahma, mas os tempos mudaram. Bohemia hoje é raridade na mesa do brasileiro, mesmo que seja em uma conversa descontraída sobre Hegel com camarão à milanesa.”

Para debates literários, Bala recomenda Caracu: “Se a conversa envolver Oscar Wilde, Caracu com ovo vai bem. Se for só uma pincelada sobre a importância de Albert Camus, Caracu sem ovo já resolve.”

Nos próximos capítulos, os petiscos como busca da verdade universal e a arte de usar a conta como um instrumento argumentativo. Não percam. Te vejo na 66.

Um comentário:

Unknown disse...

Deveras interessante a reunião de vossas senhorias. E, com um patrono desses, não há como não ser bem sucedido. :)